Nostalgia


Eu tenho um pequeno bar de esquina, não há muito movimento aqui mas ainda sim temos uma quantia razoável de clientes.

Há 17 anos atrás eu vim morar aqui. Nessas redondezas havia apenas algumas casinhas, e uma instituição de tratamento mais a frente. Há 13 anos atrás, algo muito horrível aconteceu. Uma garota de 19 anos foi brutalmente assassinada a uma esquina daqui. 

Era quase meia noite quando ouvi os gritos. Foram poucos e abafados. Acredito que os vizinhos não tenham percebido, os que estavam em casa claro, era época de natal, muitas das pessoas que moravam aqui viajavam para a casa dos familiares. No dia seguinte, enquanto eu colocava o lixo para fora de casa, pois tinha esquecido na porta de meu bar na noite anterior, vi uma multidão de gente mais a frente de onde eu morava. Curioso, fui até lá. 

A imagem que vi me deixou pasmo, o pai da garota chorava sobre seu corpo, ou o que restou dele. Eu conhecia aqueles dois, eles moravam um pouco distante de minha casa, próximos a instituição de tratamento mental. 

O corpo da garota estava envolto a sangue, tiras de carne e seus membros espalhados para todo lado. Suas pernas foram cortadas em, eu não sei nem porque contei, cinco partes. Apenas um de seus braços estava inteiro, o outro foi totalmente picotado, em tantos pedaços e espalhados ao chão de forma que não consegui contar. A garota estava despida, seu corpo totalmente nu, sua barriga havia sido aberta e suas tripas estavam todas para fora de seu corpo. Podia-se perceber no corpo da garota diversos cortes menos profundos, em seu braço, seios, pescoço. A única parte de seu corpo que estava intacta era seu belo e jovem rosto. A expressão deixada nele era horripilante. 

Aquela imagem nunca saiu de minha cabeça, eu me lembro como se fosse ontem. E até hoje não descobriram quem foi o assassino. Eu pensei em me mudar e minha mulher também insistiu que saíssemos daqui, mas eu não quis, havia pouco tempo desde que chegamos e eu gostei do lugar, era calmo, bom de se morar.

Nós ficamos lá, anos se passaram, mais e mais pessoas começaram a se mudar para cá e o assassinato da garota acabou sendo esquecido. 

Porque estou falando isso para vocês? Não sei ao certo, apenas me deu uma nostalgia do passado. Agora é quase meia noite, época de natal de novo, está frio, a maioria das pessoas estão trancadas em sua casa e eu aqui, limpando este barzinho. 

Eu fui para fora do bar, nesse frio imenso jogar o lixo, pude avistar mais adiante uma garota vindo nessa direção. Entrei para dentro de meu bar, fui até o balcão, empurrei-o para frente, me agachei, aquela tábua solta estava da mesma forma que eu a tinha deixado desde a ultima vez. Eu a retirei, num pequeno buraco revelado por esta tábua estava um saco plástico preto, eu o abri, a faca dentro dele estava meio enferrujada e sem fio, apenas o osso restou do que um dia foi um dedo carnudo. 

Eu peguei a faca e sai rápido para fora, lembrando daquele dia enquanto olhava a mulher passar por frente de meu bar. Assim como aquela vez, minha mulher havia ido celebrar o natal com sua família que eu odeio tanto, e, para minha sorte, hoje parece que eu terei novamente, depois de quase 14 anos, um verdadeiro e divertido natal.

Ho-ho-ho...

Escrito por: Alan Douglas, de O Olho Mágico

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